O entardecer lá na roça
de tão bonito que ele era,
- nas cores da primavera
pintava nossa palhoça.
Na estradinha da porteira,
morava a velha paineira
bem em frente à nossa choça.
Feito fios de ouro do sol
o vermelho era trançado,
diziam que era bordado
aquele nosso arrebol.
Era um céu de muitas cores,
cenário de mil amores,
canteiro de girassol!
Passando a língua no coxo,
as vaquinhas no curral,
raspavam resto de sal
deixado pelo boi mocho.
Querendo abrir a tramela,
assanhada, a Sentinela,
cobiçava o potro roxo.
Carregada com seus cachos
a paineira envelhecida,
- pensionato de acolhida,
no aconchego de seus braços,
recebendo a passarada
para mais uma noitada
entre cochilos e “amassos”.
Meu pai olhando o matinho,
sentado no seu pilão,
sem descuidar do gavião
querendo comer pintinho.
A mãe, “banando” feijão,
já eu, cardava algodão,
sentada no meu banquinho.
Nessa tarde quase morta,
ao som de moda caipira,
o meu pai , na alça de embira,
bota o seu chapéu na porta.
Vai pro rabo do fogão,
faz um pito com a mão,
se a palha é seca, que importa?
Minha mãe pega a bacia
esquenta água na fornalha,
põe no cesto a sua malha
que tricota para a tia.
Bota os pés para lavar
logo após já vai deitar
bem longe já vai o dia.
Chega a hora de deitar,
- o momento do rosário,
todo dia nesse horário
a família vai rezar.
- “Bença” mãe e “bença” pai,
cada um pro quarto vai.
O silêncio vai reinar!
O velho colchão de palha
barulhento e bem macio
é muralha contra o frio
naquela casa sem calha.
Todo mundo já deitado
o meu pai mais sossegado
vai pegar água na talha.
Dáguima Verônica de Oliveira
A VELHA ROSEIRA
As lágrimas viram bolhas...
O mar cansado secou,
em seu leito algumas folhas
que a tempestade deixou.
Revive tantos horrores
nas folhas secas trazidas
por um oceano de dores,
hoje em águas já corridas.
Se recolhe, então, em prece
e faz trovas de improviso,
lindos versos ela tece
o amor chega sem aviso.
A saudade não permite
os espinhos sobre a rosa
sabe ela do seu limite
só no amor fica formosa.
Podada por tantas dores
no deserto ela se abriu
dos espinhos nascem flores...
Toda a roseira floriu.
Dáguima Verônica de Oliveira
REVERSO
Eu tenho aqui na garganta
o meu grito aprisionado
não sai, porque não adianta
gritar ao velho passado.
Fugir de mim mesma, ousei,
não pensei nas conseqüências;
chegando lá não me achei,
eu não tinha referências!
Controlei meu sentimento
e tracei uma divisa
prendi a força do vento
e dei asas para a brisa.
Tem que existir o conflito
para discernir a paz
não tem silêncio sem grito
nem ordem sem capataz.
Injustiça é nosso avesso,
fazemos tudo escondido:
na aparência um endereço
e por dentro o do bandido.
Fui buscar o meu reverso
lá nas dobras da “arte-manha”,
estava em forma de verso
no topo de uma montanha
Do vale emergi ao topo
da relva virei madeira
do poço fui ao escopo
e em tudo fui verdadeira.
Somente quando “voltei”
a enxergar o meu escuro
das escamas me livrei
encontrando o que procuro.
Ladrilhando o meu futuro
com as pedras da humildade
pude ver no meu escuro
um mundo de claridade.
Dáguima Verônica de Oliveira
MENINO DE RUA
Apareceu um menino
no olhar, mágoa represada
badalando como um sino
no grito da dor surrada.
Pobre, da rua inquilino,
mas banido da calçada!
Um cão, surge como um hino,
parte o pão, é camarada.
Junto aos grandes, o pequeno,
como uma flor desfolhada,
tal qual encosto, é veneno,
o menino da calçada.
Vem buscar-lhe a arrogância
enquadrando o pequenino
por orgulho e por ganância
mata o cão, prende o menino.
A velha Moral da História
vai dizendo (que horroroso!!)
e gravando na memória:
- O cão é mais amoroso!
Dáguima Verônica de Oliveira
INDIFERENÇA
Vago caminhar da neve
cai numa estrutura errante,
congelando o alvo pensante
que perdoar nunca se atreve.
Na dor também se faz verso,
sabe que chega o diverso,
reverso que faz o leve.
Um buscar, não sei por quê,
se a aurora nem mais tem cor,
os sonhos no decompor
desabam em degradê.
O nevoeiro empata a pista,
embaçando a própria vista,
o caminho ele não vê.
Boicotando as emoções,
a senhora indiferença,
num seqüestro à sua crença,
deixa em troca seus grilhões.
Dando à luz o seu bastardo,
tricotando o próprio fardo
cobra juros de milhões.
Mergulhado em seu vazio
acaba quebrando o leme,
solidão, o peito geme,
malha fina passa o frio.
O que penso aqui escrevo,
paro aqui, não mais me atrevo,
queimo a ponta do pavio.
Dáguima Verônica de Oliveira
TE QUERO ASSIM
Esse seu jeito fugaz
com semblante descontente
passa um homem contumaz
de caráter prepotente.
Mas, eu sei bem que escondido
carrega um sangue latino,
tem a cara de bandido,
porém, por dentro um menino.
Foge de si para mim
finge ser ponta de espada
não sabe que agindo assim
só bifurca sua estrada.
Quero seu jeito maneiro
te quero assim atrevido
nem latino, nem mineiro
mas um homem resolvido.
Aceite um beijo calliente
e mostre a suas carências,
reaja, fique contente
com as minhas indecências.
Te quero assim desarmado
bem pequeno, lá no fundo,
sabes bem que é muito amado
assim, meio vagabundo.
Do fundo vem o pinheiro
e de cima vem trovão
prefiro um cara faceiro
que comece pelo chão.
Dáguima Verônica de Oliveira
ALMA CAIPIRA
Deixo a estrada poeirenta,
venho para o asfalto bruto,
pelo novo estou sedenta,
quanto ao velho eu não escuto.
Via Deus em toda parte,
reinava a paz da alegria...!
A fazenda, meu baluarte...,
perigo jamais se via!
Meu cantinho era tão puro,
espinho só na roseira,
não tinha medo de escuro,
tenho a alma brasileira.
Chegando aqui, eu não me acho,
abrindo a janela eu “vejo”
doce cantar do meu riacho
no meu olho sertanejo.
É tamanha essa tristeza
que chega a rasgar o peito,
nos meus sonhos fico presa
só dormindo é que eu me ajeito.
Comprei sonhos para o exílio
troquei flores pelo espinho
chorando a Deus, peço auxílio:
Tece em terra meu caminho!
Dáguima Verônica de Oliveira
OTIMISMO EM CORES
Nesse caminho de flores
com meu sopro tenho a luz,
o otimismo me conduz
ganho asas e deixo as dores.
Com um pé subo na balsa
e com o outro eu danço a valsa
num jogo de muitas cores.
O arco-íris é minha ponte
na travessia do rio,
- cujo leito está no cio
e dessa água eu tenho a fonte.
Quando a cachoeira de cores
deita a luz dos meus amores
pego a linha do horizonte.
O mar da felicidade,
o meu rio ele seduz,
deságua em terra de luz
na sua melhor idade.
Bebo o fruto do meu sonho
nesse curso a sorte eu ponho
navego em prosperidade.
Com um braço faço o remo,
e com o outro eu traço a meta,
com a fé me faço atleta
com meu Deus eu nada temo.
Com as asas da vontade
- tecidas na mocidade
eu chego ao prazer extremo!
Dáguima Verônica de Oliveira
O LIVRO
Que tristeza essa cegueira
é tão triste que dá medo
a cultura brasileira
não ver no livro O SEGREDO!
Quanta vida engavetada,
quantos sonhos são dobrados...
linda história ali trancada,
são gritos aprisionados!
Chegando em casa não li
o meu livro preferido
mas, por uma fresta eu vi
um grande amor escondido...
um grande amor escondido
em cada frase não lida,
em cada letra um pedido:
- Não me tranque eu sou a VIDA!
Dáguima Verônica de Oliveira
O FILHO PRÓDIGO
Não quero essa vida mansa
- diz ao pai - quero outra vida.
Dá-me a parte na herança,
porque já estou de partida.
O filho abandona a casa
sem remorso e sem saudade
de aventura tece a asa
que o leva para a cidade.
O pobre pai fazendeiro
tem a dor no coração
o seu outro filho herdeiro
não tem a mesma emoção.
A consciência que boicota
para o pai era a esperança
numa lembrança remota
recorda de outra criança.
Sabe ele que a dor da cruz
nos ensina com tormento
faz brotar do fundo a luz
que nos dá discernimento.
Todo orgulho farisaico
- do outro filho que ficou,
se transforma num mosaico
do seu “eu” que ele pintou.
A fuga do filho moço
lapidou sua vontade
sofre no fundo do poço,
chora de tanta saudade.
Gastou todo o seu dinheiro
com fome ficou doente
dormiu até no chiqueiro
viveu como um indigente.
A escolha que o filho faz
fez brotar de sua entranha
algo bom, algo eficaz,
mesmo que pareça estranha.
Filho que se compromete
celebra um nascer de novo
outro erro nunca repete
e se torna herói do povo.
A volta, diz o Evangelho,
para o pai foi uma graça
não para o filho mais velho
que viu nisso uma desgraça.
Ordeiro e disciplinado
o mais velho se acomoda
o outro, desorganizado,
o seu orgulho ele poda.
Na preferência incontida,
o seu “Pai” escolhe o AMOR,
na armadilha dessa vida
fica o exemplo do Senhor.
Dáguima Verônica de Oliveira
CHIQUINHO DE ASSIS
Penitente Franciscano
de si mesmo despojou,
de armadura, quis foi pano,
sem vaidade, nu ficou.
Por todos, foi desprezado,
na vida de penitência,
entrega ao crucificado,
nunca teve desistência!
Vendo o Cristo flagelado:
sente na alma tal ferida,
por tais dores, é chagado,
do Evangelho, fez a vida!
Fez poemas para o sol,
teve lobos como amigos,
fez de Clara seu farol,
ganhando em troca, inimigos.
Quase cego ele morreu,
de seus olhos, fez a luz
que no mundo se acendeu:
para a PAZ ela conduz!
Dáguima Verônica de Oliveira
PAI
Com seu bastão vacilante
segue sem medo o caminho,
sabe o segredo do espinho,
passa por cima, o viajante.
Risca na face enrugada
a linha certa da estrada...
Pinta no mapa o semblante.
Sabe que o viver é breve,
abre a sacola da vida,
ganha tempo na corrida,
ali só tem coisa leve...
Tão leve quanto a coragem
- Assim é minha bagagem!
Contente meu pai escreve!
Tem no peito a luz que arde
prevenindo contra a curva,
sabe ele que a vista é turva
por estar no fim da tarde.
Traz a marca de um açoite
que não deixa ver a noite
do medo não é covarde.
Rega seu jardim em flores.
Sua estrada vai cobrindo
com sete botões abrindo
semeando outros amores,
pra quando murchar o cravo,
da saudade eu seja escravo,
no perfume engane as dores.
Dáguima Verônica de Oliveira
NO HORIZONTE DA ESPERANÇA
No horizonte da esperança,
abrem-se trilhos de prata.
De fronte erguida ela alcança
uma clareira na mata.
Ainda é tempo para amar,
- brinca o barulho da luz,
esse luar quer falar
que aqui dentro tem Jesus.
Em desespero, o meu barco
quebra seus remos da luta,
na lambada desse charco
me jogo em terra de escuta.
Fica o luar comovido
abrem-se, então, as compotas,
um clarão mais atrevido
risca do chão as derrotas.
Dáguima Verônica de Oliveira
LUA
Abro a porta, saio à rua
vou andar pela cidade
só não posso é ver a lua
que me traz tanta saudade.
Solitária, vejo a lua
refletindo sua imagem
tão brilhante sobre a rua,
tão real...mas é miragem.
Vagando à beira do rio
num reflexo, vejo a lua
n’alma mergulha um vazio,
me mata a saudade sua...
Volto à cama, fico nua...
olho a fresta, fico muda,
se intromete e vem a lua
traz seu corpo e em mim se gruda.
Dáguima Verônica de Oliveira
CAMPONESA
Eu meto a espora no Baio,
cortando mato e campina
não tenho medo, eu não caio,
me segura a Mão Divina.
Um velho chapéu de palha
uma bota já rasgada
isso é toda minha tralha
que preciso nessa estrada.
Tenho o Baio como amigo,
que na hora da porteira
dá um coice no inimigo
e sai logo na carreira.
Amazona de carteira
meu galope é desbravar
para mim não tem fronteira
que eu não possa atravessar.
Sou camponesa valente
na raça traço meu trilho
mato a presa com meu dente
e o chicote é meu gatilho.
Dáguima Verônica de Oliveira
DESPEDIDA
Na manhã cinzenta e fria
um lenço acena no cais,
outro alguém de mão vazia,
colhe ao vento os meus sinais
O chão me foge dos pés,
água pula de um bueiro,
salta um beijo do convés
vem do meu amor primeiro
Abrindo trilhos de prata
o Vapor joga sinais
muito longe, além da mata
vai o amor, não volta mais.
Dáguima Verônica de Oliveira
CHAGAS
Mesmo que um tenha razão,
tenham brigas escondidas
essa dor não sai mais não
pra sempre serão feridas.
Até hoje ainda me rói
as lembranças tão antigas
se soubessem como dói
não teriam essas brigas.
Sempre acordo em sobressalto
ao sonhar com as discussões
meus pais discutiam alto
flagelando as emoções.
O pior eu digo agora:
- quando me pego fazendo
o que fizeram outrora,
muito mais fico sofrendo.
Eu tento arrancar do peito
lembranças aprisionadas,
não consigo, não tem jeito,
pois em mim estão chagadas.
Dáguima Verônica de Oliveira
ESPERANÇA
Nas dobras da minha estrada
a menina independente
não tinha medo de nada...
Eu faria novamente!
O tempo passando em asas
- onde está o sorriso meu?
meu coração feito em brasas
por mim mesma não viveu!
Esquecendo o meu presente
abri asas ao futuro
de mim mesma fui ausente
meu viver ficou escuro.
A noite rasga a cortina
que cobre a manhã dourada
descobre nova menina,
no leito, bem acordada .
Dáguima Verônica de Oliveira
SOFRIMENTO
Quando é noite em nossa vida
nosso rumo fica escuro
o viver se torna duro
e ficamos sem saída.
A ilusão da noite mata
e a gente fica até grata
se ficamos sem guarida.
Amigos logo se vão
bem atrás vai nossa fé
viramos qualquer ralé
perdidos na solidão.
Tudo mergulha em vazio
qualquer fogo fica frio
congela toda emoção.
Numa crise de existência
perdidos sem esperança
não buscamos a mudança
já nem pedimos clemência.
Parados sem debater
deixamos de abastecer
toda nossa desistência.
Nesse momento, astuto,
vem o tempo sorrateiro
com seu saber verdadeiro
cobrar da gente um tributo.
Nesse choque, vacilamos
sem perceber, libertamos
para um querer resoluto.
Dáguima Verônica de Oliveira
SOLIDÃO
Moro em cidade perdida
onde o sino gera impasse:
geme na torre escondida
fazendo molhar a face.
Numa cidade pequena
qualquer cheiro nos inunda:
no perfume da açucena
mora a solidão profunda.
Avista-se ao longe o riacho
onde em criança brinquei:
a juriti geme, eu acho,
sentindo que suspirei.
Eu sei do choro o segredo
peço a Deus a compaixão:
me arranque logo esse medo
que sofro na solidão.
Dáguima Verônica de Oliveira
TEMPO
No meu rosto que envelhece
vejo um sorriso brilhando
toda mudança é uma prece
que jovem se faz chorando.
O tempo não dá descanso
colhe a rosa esquece o espinho...
no segredo do remanso
perfumei todo meu ninho.
Mesmo com o sol se pondo
fica o céu todo brilhante
da noite sempre me escondo
minha luz sempre é constante.
Meu choro virou canção
do sorriso eu fiz pegada
se a vida passa em roldão
minha força é madrugada.
Enquanto o ponteiro corre
com sua sina de arraia
a sua esperança morre
bem cedo em ponta de praia.
Dáguima Verônica de Oliveira
VIDA SERTANEJA
O cantar dos passarinhos
borbulhando em minha mente
numa saudade eminente
traz de volta os meus caminhos.
No quintal velha mangueira
dando sombra à churrasqueira
o lazer dos meus vizinhos.
Nas cordas do violão, mora
o fio de toda emoção
arrochando o coração
fazendo gemer quem chora.
Lá na porta da cozinha
suspira fundo a mãezinha
lembra alguém que foi embora.
A fumaça dribla o choro
da moçada no quintal
vão disfarce, não faz mal,
desse jeito dá namoro.
Sertanejo tem na raça:
- É na dor que vem a graça
da fortaleza de um touro.
Essa vida do sertão
cobre o leito do presente
abrigando a minha mente
com coisas do coração,
mesmo assim eu passo frio
tenho meu leito vazio
não tem corpo essa ilusão.
Dáguima Verônica de Oliveira
DEPOIS DA CHUVA
Cheiro com gosto de uma terra suada,
comunica, ao vivo, que já tem ar
feito em doce de terra perfumada
buscando a brisa para se espalhar.
A passarada, em fundo musical,
tomba a rosa que se põe a dançar,
é o rodopio de um vento teatral
pra jogar flores em um chão de mar.
Ah! desponta ao fundo, lá no horizonte,
o arco-íris, bebe em cores, dessa fonte,
trazendo, em foco, o corpo transparente.
Lá do alto, numa pose decorada,
vem o Céu, num sorriso mui contente,
degustar conosco, a terra molhada!
Dáguima Verônica de Oliveira
PÁGINA VIRADA
Volto à página da vida, ao avesso
corro em pontos de medo, era gracejo
fuga dos próprios grilos, hoje eu vejo
impulso à própria sorte, reconheço.
Dei-me as cordas do tempo e solto as pontas
vai passar o aviso e eu só devaneios
acordada, eu colhi os meus anseios
por mim mesma eu paguei as minhas contas.
Nessa visão eu vejo, os meus instantes
proliferando em tempos inconstantes
venturas de um engano que ora invento.
Se no poço tem molas, pula o barro
abrindo belas flores, que bizarro!
Fecho o livro, chegando ao meu intento.
Dáguima Verônica de Oliveira
O VELHO CARRO DE BOI
O carro de boi cantando
o meu pai com seu peão,
- um na frente outro tocando,
cada um com seu ferrão.
O carro cheio de milho,
rasgando parte do trilho,
deixando marca no chão.
Em cima daquela carga,
um velho jacá vazio,
- sinal da batalha amarga,
em tantas noites de frio,
em tantos dias de sol,
em cada doce arrebol,
contornando aquele rio.
Chegando em casa bem tarde,
- o milho já nos porões,
mas o canto ainda arde
na cabeça dos peões.
Meu pai, “carreiro” da vida,
sabe a dor de uma subida
fazendo gemer canções.
No outro dia a vistoria
- ainda na madrugada
preparando a cantoria
para mais uma empreitada.
Checando em baixo, a emborgueira,
junto a ela a cantadeira
que vai dar o tom na estrada.
A junta de bois da guia,
- já presos ao cabeçalho,
mostrando que nasce o dia
pra arrancar do chão cascalho.
Ferrão de carrapateiro,
bem em riste o seu ponteiro
cutuca para o trabalho.
De novo meu pai na frente
desbravando a lama suja.
A boiada na corrente,
- sob a mira de Azambuja,
do trançado de taquara
cutucava com a vara
no “depenar da coruja”.
Nossa vida era uma escola
feita de sonho e canção,
em nosso peito ainda rola
a cantiga da emoção...
O velho carro de boi
- eu não sei pra onde foi,
questiona meu coração!
Dáguima Verônica de Oliveira
PRIMEIRA VIAGEM
Junto ao toco da porteira
eu guardei o meu segredo,
sob a sombra da paineira
escrevi o meu enredo.
Era curva de caminho,
sobre a grama fiz meu ninho,
ali tive a vez primeira.
Os beijos sem endereço,
um fungado em nossa orelha
- sem ter tempo, reconheço .
Gemendo, o berro da ovelha
traça a medida da dor
da vergonha sem pudor
que é sentida no começo.
A nossa primeira viagem,
como curva de caminho,
a gente não vê paisagem
também não se faz carinho.
Matéria prima de pedra,
qualquer coisa a gente medra,
qualquer espaço é barragem.
Fica a mancha da saudade
de uma etapa assim queimada
na faminta puberdade
de um fazer de um quase nada.
Se o tempo pra nós voltasse
e de novo a gente amasse
eu dobrava a madrugada.
O vento escrevendo as cores,
a brisa parando o tempo,
entre beijos e clamores
sem medo e sem contratempo,
suspirando a vez primeira,
degustando a derradeira
sem ter culpa nem pudores.
Feita em sonhos, a saudade
costura um fio de esperança
- lá da roça pra cidade
como se fosse criança.
Juntam mundos em segundos,
num cruzamento, fecundos,
pra dar cria a uma vontade.
A primeira viagem dói,
deixa marca em nossa vida,
muita coisa ela destrói,
faz buraco, faz ferida
puxando nosso pensar,
fazendo a gente voltar
para uma etapa perdida.
Dáguima Verônica de Oliveira
POEMA SEM SENTIDO
Ah, se eu pudesse voltar
por entre sonhos passados!
Eu sei, jamais esperava
não ter tido os meus cuidados.
Vago, por essa avenida
misturada aos espantalhos.
Bebo o sabor de um suicida
tendo a cabeça entre galhos.
Eu amontoarei meus versos
- mesmo já tendo partido,
fingirei os teus regressos
num poema sem sentido.
Agarrarei o teu rosto,
- do teu corpo me aproprio,
comerei desse teu gosto
no sabor de um arrepio.
Como não te amar agora?
Pede mimo eu dou amor,
extasiados, como outrora,
sob um fogo abrasador.
Como se fosse a primeira
da pedra não lapidada,
armadilha derradeira,
eis a gota derramada...!
Tudo faço sem ter nexo,
te escrevo com mão vazia
pra te ler entre meu sexo,
nessa pobre poesia.
Dáguima Verônica de Oliveira
SILÊNCIO
Um grito mudo?
pode ser...
A alma quem diz.
Tudo que sei
é quando meu eu
quer falar
e o grito
fica preso na garganta,
sentimentos se misturam por todo corpo.
Mas quando você vem,
entra em mim
meu eu
fala mais que mil palavras,
tudo fala,
tudo faz...
Fico muda,
falante de prazer.
Dáguima Verônica de Oliveira
CHÃO DE BARRO
Meu terreiro de pitangas
lá pertinho do riacho,
bem do lado um pé de mangas,
um abacateiro, eu acho.
Sem ver campo, sem ver serra,
no asfalto bruto me esbarro,
sem sentir cheiro de terra,
sem sentir meu chão de barro.
No fundo de cada vida
brota dor no coração,
uma saudade doída
como eu sinto do meu chão.
Chão de barro do sertão,
da minha velha palhoça,
andava com pé no chão,
o meu carro era carroça.
Saudade que rasga chão
não me encerro na cidade,
aqui, morro de paixão,
aqui morro de saudade.
Dáguima Verônica de Oliveira
NO BALANÇO DA SAUDADE
A saudade tem cheiro de gangorra
no quintal da criança que hoje acorda,
presa em apartamento igual masmorra.
Despertando, a saudade se transborda...
A gangorra era presa na paineira,
muito bem amarrada por meu pai,
com cordas de pear vaca leiteira.
A saudade que tenho não se esvai...
Faz tanto tempo que hoje nem recordo
se caí da gangorra, nela a bordo,
mas lembro de mamãe me prevenir.
Minha mãe, hoje tem bem mais perigo,
fico aqui, prisioneira em meu abrigo,
a saudade eu balanço pra dormir.
Dáguima Verônica de Oliveira
O MENINO CAPETINHA
“ O Menino Capetinha”
fez-se mote em minha escola
Já chegava saltitando
como se pisasse em mola
todo mundo se arredava
não ficava onde ele estava,
exceto para dar cola.
Ai de alguém que não ousasse
acatar sua ameaça,
o menino já dizia:
- “ Você é a minha caça,
vou te torturar primeiro,
depois como por inteiro,
dessa vez você não passa!”
O Menino Capetinha
nem chegava ao seu intento
o pavor era tão grande
que sem nenhum movimento
todo mundo obedecia
e com medo agradecia
desculpando com lamento.
Sempre chegando atrasado
meia hora ele roubava
ajustando a sua mesa
na sala inteira ele andava
fazendo o maior barulho
chutando qualquer entulho...
Todo mundo se calava.
A professora, coitada
sempre ali passando mal
não havia solução
o moleque marginal
carregado de vingança
um palavrão sempre lança
acertando na moral.
A diretora escondida,
O Conselho Tutelar,
do telefone chamava:
-“Vem aqui nos ajudar,
o Menino Capetinha
(nem um nome ele tinha)
conosco vai acabar!”
Foram tantas expulsões
e o menino reprovado
tantos anos repetidos
seu furor sempre dobrado
meu olhar nele focava,
o menino eu já amava
por mim ele era aprovado.
Esperei fora da escola
resolvi lhe dar valor,
na sua casa chorou
vomitando seu horror.
A família numerosa
me abraçou bem carinhosa
sabia do meu amor.
E com ele ali fiquei
- era seu aniversário...
Já era noite bem alta,
não me importei com horário
partilhei com ele a luta
senti na carne a labuta
de quem não tem um salário.
Em sua casa de lona
revestida de jornal
a notícia mastigada
da injustiça Federal...
partilhando um senso crítico
desnudavam o político
que plantava todo mal.
Sabiam da hipocrisia,
- armação dos poderosos
por isso se defendiam
passando por perigosos.
Não vestiam dessa malha
cometendo a mesma falha
paparicando orgulhosos.
Lá naquela caverninha
é do céu que vem a luz
o alimento é caridade
o vestir somente a cruz...
Nesse mundo o orgulho some
o menino lá tem nome:
Não é capeta é Jesus.
Dáguima Verônica de Oliveira






















































































